quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

AVENTURA, ARQUEOLOGIA E UM NOVO MUNDO EM MARAJÓ



Nós aqui do Marajó na Mídia, convidamos você a desfrutar deste excelente documento de Adriano Gambarini. Formado em Geologia, espeleólogo, fotografo e mergulhador, é membro do Conselho do Instituto Pró-Carnívoros, fotografa para WWF, TNC, CI e Instituto Terra Brasilis. É autor de oito livros fotográficos e dois de poesia, produz matérias para revistas ambientais e possui mais de 80 mil imagens de biomas, biodiversidade, cavernas e cultura do Brasil, Antártida e 17 países. vale a pena apreciar este trabalho que pode colaborar inclusive com suas pesquisas e estudos.

Veja as imagens



A neblina ainda nem sumiu direito e o sol quente ainda por vir já prenunciava uma aventura um tanto ousada pelas águas do Pará: sair remando de Belém em caiaques oceânicos, cruzar a temida Baia de Marajo e seguir pelo Rio Arari, que corta praticamente de sul a norte toda a ilha. Já no extremo norte, cruzar o Canal do Sul, um dos braços violentos da Foz do Rio Amazonas, e terminar a viagem na Ilha Mexiana, exatamente no Marco Zero da Linha do Equador. Uma viagem prevista para durar 15 dias, e nada mais nada menos, do que 350 km de remada! Ao todo foram cinco caiaques, sendo um duplo; um pequena traineira de apoio propiciava um pouco maior de mobilidade para minha documentação fotográfica, carregando parte dos equipamentos – durante todo tempo em que remei, trabalhei com câmera de mergulho.



Uma jornada arriscada o suficiente para os pescadores incrédulos balbuciarem: “Com estes casquinhos não chegam nem em Cotijuba!” (25 km dali). A dificuldade já conhecida pelo povo local está principalmente na travessia do Rio Pará, na Baia do Marajó, famosa por seu mau humor e que os pescadores locais só enfrentam com muita cautela. Mas surpreendentemente o dia amanheceu nublado, ótimo para acalmar os nervos destas águas tempestuosas. O destino, após 8 horas de travessia e um vento de 20 nós pegando alguns de surpresa, foi a Vila de Tartarugueiro , na entrada do Rio Arari. A Vila, fundada por descendentes de escravos, tem uma população que não chega às 100 pessoas, praticamente todos parentes; vivem da pesca, produção de açaí, bacuri, mandioca e outras frutas amazônicas que são vendidas semanalmente nos mercados de Belém.


O Arquipélago do Marajó é considerado o maior arquipélago flúvio-marítimo do mundo, sendo que a ilha possui uma área que ultrapassa os 40 mil km2. Mais de 2 mil ilhas e ilhotas se espalham pelos meandros insulares. Extremamente plana, possui alguns montes considerados artificiais, chamados de ‘tesos’, cuja origem, dizem, remonta da época pré-colombiana feitos pelos índios locais. Dizem...
Quanto a fisionomia da paisagem, Marajó está longe de ser apenas charcos habitados por búfalos. Em todo o percurso da expedição pude notar uma grande variação de ecossistemas, que vai de floresta ombrófila densa, campos mistos alagados e campos de várzea, manguezais e cerrado. As tempestades foram uma constante; mas da mesma forma como surgiam, desapareciam por enquanto.

A primeira cidade alcançada foi Cachoeira do Arari , onde encontra-se o Museu do Marajó, fundado informalmente pelo italiano Giovanni Gallo em1972. Mas em 1984 tornou-se efetivo e aberto ao público, com uma infinidade de achados arqueológicos, cerâmicas, utensílios, memória dos hábitos e modos de vida do povo marajoara. O mais surpreendente,  nestes confins brasileiros é encontrar lugares assim, cuja proposta de resgate e conservação da história do pais só acontece pela iniciativa individual de pessoas visionarias. Vi cerâmicas e urnas funerárias em quintais de sítios num verdadeiro cenário arqueológico a céu aberto.


Após Cachoeira do Arari, começamos a usar os famosos ‘furos’ – pequenos atalhos entre a vegetação rasteira dos campos - que cortam, e confundem, os caminhos. Na linha d’água tudo é absolutamente igual, e é fantástica a capacidade dos moradores se localizarem naquele mar de água, pasto e flores aquáticas. Muitos destes “furos” são criados com as movimentações dos búfalos, que pesadamente formam trilhos nos campos na época seca, e canais nos períodos de chuva. Dizem até que todo esta movimentação durante todas as décadas de criação bufalina vêm alterando consideravelmente a hidrologia da ilha. Dizem...

A Vila de Jenipapo , considerada a maior estiva do mundo, foi alcançada após alguns dias. Na realidade é uma grande vila suspensa em palafitas, toda em madeira e, dizem, com mais de 10 km de pontes que ligam as casas, igreja, comércio, chiqueiros, hortas.



Tudo acontece sobre pontes , tudo é despejado dentro d’água... Há poucos quilômetros de Santa Cruz do Arari, importante cidade à beira do Lago Arari. Passagem para os barcos que transportam pessoas e mantimentos de Belém até a borda norte da ilha. Não é incomum ver  búfalos montados como se fossem cavalos, com direito a cela e alforje pra carregar compras e que ficam estacionados na entrada dos bares, onde vaqueiros (ou será bufaleiros?) se acotovelam entre as mesas de sinuca; e entre uma cachaça e outra, um quebra-pau pra relaxar.

Sétimo dia de viagem, e os calos e as micoses começaram a mostrar sinais de vitalidade. Após Santa Cruz do Arari percebemos um característica fluvial muito interessante; até chegarmos no Lago, pegamos corrente contra o tempo todo, já que as águas do rio Arari deságuam no Rio Pará. Já nesta porção norte é o contrário, e pelo fato do canal dos Mocoões – construído artificialmente para facilitar o transito de barcos que transportam búfalos – ser mais estreito, a corrente é maior e favor em direção à Foz do Amazonas.

A paisagem agora configura apenas campos de fazenda, e não foram poucas as vezes em que nos perdemos, apesar das coordenadas e GPS a postos. Por conta do trânsito permanente de búfalos, e por consequência, roubos frequentes, a tranquilidade de eventuais descansos nas margens era constantemente frustrada por jagunços armados.



A passagem pelo Rio Egito trouxe de volta o mistério natural que ronda esta ilha; águas negras e frias, estreito, pouco ensolarado, com grandes extensões de mururés (espécie de planta aquática) fechando e dificultando a remada, e aumentando a chance de um encontro às escuras com alguma sucuri moradora. E assim foi até Arapixi, uma verdadeira cidade cenográfica próximo ao Canal do Sul. Formada por um ‘quadrado’ de casas que circundam a igreja, todas de madeira, cuidadosamente pintadas, reformadas e suspensas. É rodeado por plantações naturais de açaí e palmeiras buriti, dando um ar ainda mais bucólico.


A última etapa da viagem, a travessia do Canal até Ilha Mexiana foi abortada por conta das ondas amazônicas impedindo qualquer tentativa ousada de navegação. Aliás, a tentativa aconteceu, mas dois caiaques viraram com sérias avarias e perda de equipamento.

Mas na Ilha Mexiana, o destino final do marco zero da Linha do Equador foi alcançado, assim como a certeza de que o Brasil, é antes de tudo, um mundo a ser explorado. E cuidadosamente cuidado, antes que acabe...

* A expedição foi organizada pela Kaluanã, agencia de esportes de aventura em Belém. Contou com um grupo de 7 pessoas + apoio de pessoas locais.

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